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O sequenciamento da microbiota intestinal pode auxiliar no planejamento e efetividade de Dietas de Emagrecimento?

Está bem estabelecido que o microbioma intestinal é diferente entre indivíduos obesos e magros 1.  Pessoas obesas frequentemente apresentam menor diversidade de microrganismos e seus genes, com aumento da razão Firmicutes/Bacteroidetes 1. Essa assinatura microbiana intestinal pode favorecer maior captação de energia proveniente da alimentação, aumento da resistência insulínica e inflamação de baixo grau 1,2.

O transplante da microbiota intestinal de ratos obesos para animais germ free promoveu aumento da deposição de gordura corporal e maior extração de calorias da dieta, diferente do transplante com microbiota de ratos magros 2. Assim, características da microbiota podem predispor para ganho ponderal 1-4.

Por hipótese, a manipulação do microbioma intestinal poderia contribuir positivamente para maior efetividade de dietas de emagrecimento e de marcadores metabólicos 3-7.

Em obesos submetidos ao protocolo de restrição calórica, por 12 semanas, as pessoas contendo maior proporção intestinal de Bacteroides fragilis, Clostridium leptum e Bifidobacterium catenulatum, e menor proporção de Clostridium coccoides, apresentaram  perda de peso mais significativa 3. Adiciona-se que houve, após intervenção nutricional rica em fibras, aumento da diversidade microbiana, que se associou com diminuição da gordura corporal e do colesterol circulante 3,4.

A predominância intestinal de Akkermansia muciniphila, bactéria que habita o muco colônico, tem sido inversamente associada ao peso corporal em estudos com animais e humanos 5,6. Experimentalmente, administração de A. muciniphila modulou favoravelmente marcadores lipídicos e de glicose; e associou-se com perda de peso e diminuição de gordura corporal em animais obesos diabéticos 5. Em humanos, a abundância de A. muciniphila foi mais prevalente após a redução de peso 6.

Faecalibacterium prausnitzii é um outro exemplo de bactéria comensal, produtora de butirato, que foi correlacionada ao fenótipo magro em estudo experimental 6.

Recente revisão sistemática verificou que todas intervenções para perda de peso (dieta, medicamento, cirurgia bariátrica) alteraram a composição basal do microbioma intestinal. Em contrapartida, nem todas alterações microbianas foram associadas com perda de peso. Chamou atenção que o tipo de dieta impactou distintamente a configuração microbiana. Em intervenções dietéticas muito restritivas, houve diminuição de bactérias benéficas a saúde, como Lactobacillus sp. e Bifidobacterium sp 1. Em portadores de síndrome metabólica, a maior riqueza  intestinal dessas duas espécies está associado com menor porcentagem de gordura visceral e melhor tolerância à glicose.

O uso de reguladores da microbiota intestinal, como probióticos, tem sido estudado como coadjuvantes no tratamento da obesidade. Em estudo multicêntrico, randomizado, duplo-cego, placebo controlado, pessoas com IMC> 25Kg/m², suplementadas com 200g diárias de Lactobacillus gasseri SBT2055, por 12 semanas, apresentaram maior perda de peso, diminuição da gordura abdominal e subcutânea, quando comparadas ao grupo não suplementado 7. Apesar dos resultados satisfatórios dessa pesquisa, até o momento, não existem metanálises com forte evidência para o uso de probióticos na perda de peso.

Finalmente, a manipulação da microbiota intestinal parece influenciar a resposta perante dietas de emagrecimento. Contudo, conhecer a composição microbiana basal, anteriormente a intervenção, é fundamental para auxiliar certas medidas terapêuticas  2-4.  Hoje, o sequenciamento do microbioma intestinal pode ser feito para qualquer indivíduo, através de kits específicos, e deve ser analisado por profissionais especializados em microbioma.

Por: Priscila Garla

Referências:

  1. Seganfredo FBBlume CAMoehlecke M, et al. Weight-lossinterventions and gut microbiota changes in overweight and obese patients: a systematic review. Obes Rev. 2017; 18(8):832-851.
  2. Turnbaugh PJ, Ley RE, Mahowald MA, Magrini V, Mardis ER, Gordon JI. An obesity-associated gut microbiome with increased capacity for energy harvest. 2006;444(7122):1027-31.
  3. Le Chatelier E, Nielsen T, Qin J, Prifti E, Hildebrand F, Falony G. Richness of human gut microbiome correlates with metabolic markers. Nature 2013; 500:541–6.
  4. Cotillard A, Kennedy SP, Kong LC, Prifti E, Pons N, Le Chatelier E, et al. Dietary intervention impact on gut microbial gene richness. Nature 2013; 500:585–8.
  5. Everard A, Belzer C, Geurts L, Ouwerkerk JP, Druart C, Bindels LB, et al. Cross-talk between Akkermansia muciniphila and intestinal epithelium controls diet-induced obesity. Proc Natl Acad Sci USA. 2013; 110:9066- 71.
  6. Remely M, Tesar, I, Hippe B, et al. Gut microbiota composition correlates with changes in body fat content due to weight loss. Beneficial Microbes, 2015; 6: 431-439
  7. Kadooka Y, Sato M, Imaizumi K, Ogawa A, Ikuyama K, Akai Y, et al. Regulation of abdominal adiposity by probiotics (Lactobacillus gasseri SBT2055) in adults with obese tendencies in a randomized controlled trial. Eur J Clin Nutr 2010; 64:636-43.

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