O Papel da Microbiota na Fisiopatogenia do Lúpus

O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença complexa, inflamatória e autoimune desencadeada por interações de diferentes fatores. A doença caracteriza-se por superativação de linfócitos e produção de autoanticorpos que conduzem à inflamação aguda e crônica e ao dano tecidual1. Numerosas anormalidades imunológicas têm sido relatadas na fisiopatogenia do LES, e incluem perda de tolerância à autoantígenos, perfis alterados de citocinas, eliminação defeituosa de células apoptóticas, armadilhas extracelulares neutrofílicas, ativação aberrante de células B e T e produção de autoanticorpos 2.

A colonização da microbiota intestinal pode influenciar a regulação de mecanismos inatos e a imunidade adaptativa do hospedeiro. Assim, estudos procuram identificar a associação entre a composição da microbiota e o LES, sendo que alguns trabalhos já demonstraram a associação entre disbiose e a doença, mas pouco se sabe sobre os mecanismos de ação envolvidos nessa relação 3.

Estudo espanhol observou menor razão de Firmicutes x Bacteroidetes e uma redução na abundância de algumas famílias do filo Firmicutes no grupo com LES 4. Este  resultado é  compatível com os achados de outro trabalho que avaliou a microbiota intestinal de 45 pacientes chineses com LES 5. Nos pacientes chineses observou-se, também, maior abundância de Rhodococcus, Eubacterium, Flavonifrator, Eggerthella , Klebsiella e Prevotella, e menor abundância de Pseudobutyribibrio e Dialister 5.  Além disso, a atividade da doença e os sintomas relacionados também podem estar associados à composição da microbiota intestinal 6.

A microbiota subgengival também pode estar alterada no LES. Maior abundância dos gêneros Prevotella , Fretibacterium e Selenomonas foi observada em pacientes doentes e a menor diversidade microbiana e a inflamação periodontal foram associadas à gravidade do lúpus 7.

Novas investigações são necessárias para descrever o papel exato do microbioma na patogênese do LES e suas manifestações. Sequenciar geneticamente a microbiota de pacientes com a doença torna-se relevante com objetivo de avaliar e corrigir quadros de disbiose e, considerando os avanços científicos, possibilitar, em breve, novas intervenções.

Referências:

  1. López, B. Sánchez, A. Margolles, et al., Intestinal dysbiosis in systemic lupus erythematosus: cause or consequence? Curr. Opin. Rheumatol. v. 28, n. 5, p. 515–522, 2016.
  2. C. Tsokos, M.S. Lo, P. Costa Reis, et al., New insights into the immunopathogenesis of systemic lupus erythematosus. Nat. Rev. Rheumatol. v. 12, n. 12, p. 716–730, 2016.
  3. R. Saadat, M. Hejazian, M. Bastami, et al. The role of microbiota in the pathogenesis of lupus: Dose it impact lupus nephritis? Pharmacological Research. 139, p. 191–198, 2018.
  4. Hevia, C. Milani, P. López, et al. Intestinal dysbiosis associated with systemic lupus erythematosus. MBio. v. 5, n. 5, e01548–01514, 2014.
  5. He, T. Shao, H. Li, et al. Alterations of the gut microbiome in Chinese patients with systemic lupus erythematosus. Gut Pathog, 2016.
  6. Zheng, B. Zeng, C. Zhou, et al. Gut microbiome remodeling induces depressive like behaviors through a pathway mediated by the host’s metabolism. Mol. Psychiatry. v. 21, n. 6, p. 786–796, 2016.
  7. I. Ivanov, L. Frutos Rde, N. Manel, et al. Specific microbiota direct the differentiation of IL-17-producing T-helper cells in the mucosa of the small intestine. Cell Host Microbe. v. 4, n. 4, p. 337–349, 2008.

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