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Novas evidências relacionando o microbioma e o diabetes

Todos os meses, pesquisas apontam diversos elos entre as bactérias que habitam o nosso intestino e a síndrome metabólica, em especial o diabetes. Eles não são simples, até porque envolvem diversos filos de microorganismos que interagem entre si e, para complicar ainda mais, com o nosso próprio organismo, em uma série reações bastante complexas. No entanto, se mais bem compreendidas, esse conhecimento impactará positivamente no tratamento de 415 milhões de diabéticos ao redor do mundo.

Pesquisas apontam diversos elos entre as bactérias que habitam o nosso intestino e a síndrome metabólica, em especial o diabetes

No Brasil, para você ter ideia, cerca de 10% da população apresenta o problema. O tipo 2 da doença chega a ser diagnosticado em mais de 19% dos brasileiros acima de 55 anos e vale ainda ressaltar que, na última década, a doença cresceu mais de 61% no país, de acordo com o Vigitel, inquérito realizado todos os anos pelo Ministério da Saúde. Um dos trabalhos mais recentes sobre a associação entre o microbioma humano e o diabetes, por sinal, é assinado por cientistas brasileiros da Fiocruz Minas.

O microbioma contribui para reduzir o açúcar no sangue

Akkermansia muciniphila, bactéria presente na população intestinal de bactérias, participa da transformação da glicose em energia para o corpo, diminuindo a concentração dessa substância na circulação sanguínea. Esse é, em resumo, o achado dos pesquisadores da Fiocruz Minas, publicado no ano passado na revista científica Nature. Mas nem tudo é boa notícia: essa importante tarefa da Akkermansia é atrapalhada pela interferon-gama, proteína produzida pelo próprio organismo para se proteger de infecções diversas. E que, nos portadores do diabetes — que no fundo pode ser considerado uma doença inflamatória crônica — é liberada constantemente, mesmo sem ameaça de infecção alguma.

Em camundongos incapazes de produzir a interferon-gama, a Akkermansiaotimizou a ação da insulina produzida pelo pâncreas. Quando, em uma segunda etapa da investigação, os cientistas introduziram, por assim dizer, uma tropa extra dessas bactérias no intestino dos animais de laboratório, a queda da glicose em circulação se acentuou ainda mais. Ponto positivo! Em uma terceira etapa, porém, os cientistas da Fiocruz Minas arriscaram injetar o tal do interferon-gama nos camundongos. E aí acabou a festa: os benefícios da Akkermansia deixaram de ser observados.

O time da Fiocruz não anda, diga-se de passagem, se debruçando apenas sobre animais de laboratório. Seus integrantes garantem que existe igualmente, em seres humanos, uma correlação entre uma população mais abundante de Akkermansia muciniphila e um nível mais adequado de glicose no sangue. Eles falam isso depois de avaliar 268 pacientes, dosando a sua glicemia e rastreando o microbioma do seu intestino — em um exame similar ao que a Bioma4me traz pioneiramente para pacientes de todo o Brasil.

Estudos assim abrem novas perspectivas para o tratamento do diabetes. Os próprios cientistas da Fiocruz Minas sugerem em seu trabalho que, no caso dos indivíduos com resistência à insulina — fase que precede o aparecimento do diabetes tipo 2 em si, quando o mal ainda pode ser freado —, prescrever nutrientes capazes de favorecer a população de Akkermansia e, ao mesmo tempo, diminuir a produção de substâncias inflamatórias no organismo pode ser uma medida muito interessante. Algo que todo profissional de saúde deveria ao menos cogitar.

Possível prever o diabetes gestacional olhando para as bactérias do intestino?

Outro trabalho recente, publicado no ano passado e que vem causando alvoroço, é assinado pelo geneticista Xiu Qiu, do Departamento de Saúde da Mulher e da Criança do Hospital da Universidade de Guangzhou, na China. Isso porque ele encontrou uma conexão entre o microbioma intestinal e o aparecimento do diabetes na gravidez. Entenda o estardalhaço: até então, quase não havia evidências dessa ligação e as poucas existentes apresentavam falhas. Não acusavam, por exemplo, quais bactérias específicas estariam envolvidas nessa condição.

O cientista chinês fez o teste genético para rastrear as bactérias no intestino de 43 futuras mamães portadoras de diabetes gestacional, comparando-as com 81 gestantes sem o problema, que também foram submetidas ao exame. As amostras para o teste foram colhidas tanto no início do quinto mês de gravidez quanto no final do sétimo. Os resultados apontaram algumas diferenças bem significativas.

Embora todas as grávidas participantes da pesquisa tivessem uma composição de bactérias parecida — em termos de filos e classes desses microorganismos — , as portadoras de diabetes gestacional apresentaram um crescimento disparado de Bacteroides spp., Parabacteroides distasonis e da família das Enterobacteriaceae — enfim, o teste, similar ao oferecido pela Bioma4me, apontou um desequilíbrio claro entre as bactérias intestinais ou disbiose, como seria o termo correto no jargão da ciência. Essa disbiose era similar em todas as mulheres com diabetes gestacional, diga-se — uma espécie de marca.

O que os pesquisadores questionam é se essa descoberta ajudaria a acender uma lâmpada amarela para grávidas no início do segundo semestre da gravidez. Ou seja, eles agora querem saber se, por acaso, a elevação dessas populações específicas de bactérias ocorreria um pouco antes de o diabetes dar as caras, favorecendo medidas preventivas por parte dos médicos e dos nutricionistas que acompanhariam essas gestantes. E a aposta é que sim.

Equilíbrio em prol do tratamento

Outro ponto em favor de ficar de olho no microbioma dos diabéticos — no caso dos portadores do tipo 2 — é que eles muitas vezes tomam metmorfina, medicação oral usada para melhorar o desempenho da insulina, quando esse hormônio produzido pelo pâncreas encontra uma tremenda resistência nas células.

De acordo com cientistas da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, liderados pelo biólogo molecular Fredrik Bäckhed, esse medicamento é modulado pelas bactérias do intestino para fazer o efeito desejável de controlar a glicose no sangue.
Segundo os cientistas suecos, que rastrearam geneticamente as bactérias do intestino de 22 usuários de metmorfina e de 28 diabéticos que usaram placebo, a medicação provoca tremendas alterações no microbioma.

Uma delas? Passados dois meses de tratamento, ela já promove um aumento da Akkermansia muciniphila — fenômeno que alcança um pico quando o diabético já toma o remédio há mais de 120 dias. E a Akkermansia, já sabe, ajuda na redução da glicose no sangue. Os pesquisadores concluem que observar o microbioma é importante para, eventualmente, o paciente buscar medidas para otimizar os efeitos positivos da metmorfina e, quem sabe — o que ainda não é certo, exigindo novas investigações — até conseguir, ao alterar o microbioma, diminuir a dosagem dessa medicação.

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